sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Mãe de Davi Fiuza pretende denunciar caso pelo mundo: ‘Preciso gritar de fora para dentro’


03/08/2018 02:20 
Mãe de Davi Fiuza pretende denunciar caso pelo mundo: ‘Preciso gritar de fora para dentro’
Com o filho desaparecido desde 24 de outubro de 2014, a última alternativa que restou para Rute Fiuza, a mãe do jovem Davi Fiuza, foi “gritar de fora para dentro”. Sentindo-se sem o apoio necessário no Brasil, ela pretende denunciar a história do filho e o “genocídio da população pobre” que acontece diariamente por aqui em outros países. Para isso, está preparando viagens aos Estados Unidos, ao México e para a Colômbia. E ela vai ao exterior depois de uma espera de quase quatro anos por informações sobre o que aconteceu com Davi. Mas, nesta quinta-feira (2), ela finalmente teve alguma resposta que pode ser o início do desfecho de um drama que a aflige desde a manhã daquele fatídico dia. A Polícia Civil informou ter concluído e enviado ao Ministério Público da Bahia (MP-BA) inquérito sobre o desaparecimento de Davi, além de ter indiciado algumas pessoas por suspeita de envolvimento no caso (veja aqui). Assim, Rute finalmente poderá descobrir quem são considerados como culpados pelo sumiço de Davi, na época com 16 anos, e também o que verdadeiramente ocorreu com ele. Para a própria Rute, o filho está morto, mas, até hoje, o corpo não foi encontrado. E, assim como não teve o direito de enterrar o próprio rebento, ela ainda não conseguiu sepultar essa dor. “Agora está mais tranquilo. Não é que o tempo cura, isso é balela. Mas a gente vai se reencontrando, até espiritualmente. Buscando melhora pra gente mesmo. Você encarar a morte de um ente querido é muito complicado, ainda mais quando você não consegue fazer o funeral. Mas estamos sobrevivendo. Como diz a música do Racionais [MC’s], ‘somos sobreviventes do inferno’”, afirmou Rute, em entrevista ao Bahia Notícias.  
“DE FORA PARA DENTRO”: Aos poucos refazendo a vida após o ocorrido, a mãe de Davi está fazendo da militância uma forma de “sobreviver no inferno”, como ela mesma diz. Ela ingressou em movimentos sociais e luta para denunciar o genocídio da população pobre e negra no Brasil e casos de violência policial. O objetivo dela é evitar que casos como o de seu filho voltem a ocorrer. Rute também passou a fazer parte de uma rede internacional de mulheres e vai viajar para outros países para falar sobre situações como a que ela viveu. Foi convidada para participar de um evento na Colômbia, outro no México e também foi chamada por uma universidade nos Estados Unidos a falar sobre desaparecimento forçado. “É preciso gritar de fora para dentro. Do exterior aqui para o Brasil. Eu percebo muito que temos uma sociedade que é muito conivente com essas coisas. A gente fica muito mobilizado e sensibilizado quando um jogador opera o joelho, mas não sente o mesmo quando um trabalhador de família é morto, por exemplo. Parece que estamos perdendo um pouco nosso lado afetuoso. Ficar denunciando só aqui é muito fechado”, lamentou. Além disso, ela desenvolveu também um projeto chamado “Mães de Maio do Nordeste”, que reúne familiares de vítimas da violência do Estado na região Nordeste. 
CETICISMO COM O ESTADO: Apesar de demonstrar ter ficado satisfeita com a conclusão do inquérito, Rute exibiu uma certa preocupação em relação os próximos passos. Ela teme que o MP-BA e o Judiciário baiano não deem a justiça devida para o caso de Davi. “Tenho ceticismo em relação à Justiça porque ela morosa e bem lenta”, afirmou, ao dizer também ver “corporativismo” entre setores do Estado, como a polícia, o próprio Ministério Público e a Justiça baiana.  “Receio de impunidade a gente sempre tem. Mas é algo que vamos ver mais pra frente. Vamos ver se denuncia”, completou, sobre a possibilidade de o MP oferecer denúncia contra os indiciados pela Polícia Civil. Caso isso ocorra, caberá ao Tribunal de Justiça da Bahia (TJ-BA) julgar os acusados, que ainda não tiveram os nomes divulgados. Procurada pelo Bahia Notícias, a Secretaria de Segurança Pública (SSP-BA) disse que só forneceria mais informações sobre o relatório final do inquérito quando ele for analisado pelo MP. Em nota, o órgão informou que o exame completo dos 12 volumes produzidos com o resultado das apurações será feito até o fim deste mês.  
DEFESA DA FAMÍLIA DE DAVI: O advogado de Rute, Paulo Kleber Carvalho Filho, afirmou que vai ao Ministério Público nesta sexta (3) para buscar mais detalhes sobre o inquérito. A família de Davi não havia sido informada sobre o fim das investigações e soube de tudo pela imprensa. “A gente tem que estar em consonância com o MP para fazermos da melhor forma possível e poder condenar os autores desse absurdo”, declarou. Ele disse ainda que teve dificuldades para ter acesso aos documentos do inquérito quando o procedimento estava na Polícia Civil. “O inquérito começou a correr em sigilo, o que dificultou a minha atividade. A gente tenta, mas não conseguimos ainda penetrar, sem ser na via judicial, em documentos da polícia”, lamentou. 
RELEMBRE O CASO DAVI FIUZA: Davi desapareceu no dia 24 de outubro de 2014, próximo a sua residência, na localidade Vila Verde, no Parque São Cristóvão. Segundo investigações preliminares, ele foi capturado por policiais militares que realizavam uma operação no local, por volta das 7h30. Segundo testemunhas, durante a incursão policial, Davi, que conversava com uma mulher em via pública, foi abordado, encapuzado, teve os pés amarrados e foi colocado no porta-malas de um carro. (por Bruno Luiz - Bahia Notícias)

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