
Era o dia 05 de outubro de 2017. Parece que foi ontem. Estava no trabalho quando soou o alerta de uma mensagem no celular. A mensagem dizia algo como: “carro de bombeiros passa em direção ao bairro Rio Novo, suspeita de incêndio em uma Creche”. Naquela hora pensei em um curto circuito, talvez alguém com uma queimadura leve, ou algo do tipo. não passava por minha cabeça tudo que já havia ocorrido e nem o que se sucederia em sequência. Poucos minutos depois da primeira mensagem, recebi um telefonema. Uma fonte me dizia que algo grave havia acontecido na creche do bairro, por que um movimento incomum estava ocorrendo no Hospital Regional. Naquela hora uma sensação estranha me ocorreu. Apanhei Minha moto e depois de passar na rádio e dar informações preliminares sobre o incêndio, fui direto ao hospital. Não sabia ainda o que havia ocorrido, mas já era evidente que não era algo dentro de uma pauta comum de jornal. Foi quando cheguei lá que me dei conta de que estava diante da maior tragédia humana que já presenciei na minha vida. Na porta do hospital acabava de chegar uma ambulância. Havia dezenas de pessoas que gritavam, choravam em desespero no hall de entrada do Regional. A cena foi terrível. Uma mulher agonizava, tinha o corpo completamente queimado, enquanto era retirada do veículo tentei imaginar quem era. Mais tarde um enfermeiro me confirmava que era a professora Helley de Abreu, uma das primeiras a serem socorridas. As ambulâncias chegavam a todo momento e a dimensão da tragédia começava a me mostrar um lado penoso do jornalismo. Depois de alguns minutos em meio à multidão que se aglomerava na porta do hospital houve uma imagem que não me sai da cabeça. Uma menininha acompanhada de um profissional sai caminhando pela porta . ela estava nua, tinha pernas e braços enfaixados, no semblante uma feição de uma agonia infantil, um olhar perdido, de uma incompreensão ingênua acerca da descoberta de tanta maldade. Atrás dessa menina vieram outros, em fila, cerca de cinco ou seis, todos com o mesmo olhar, a mesma dor. Eles tiveram que sair para dar mais espaço no pronto socorro. Eram dezenas de feridos, e foi preciso se organizar em meio ao caos, com objetivo atender os que corriam um risco de vida mais iminente. Um espaço se abriu para que as crianças pudessem respirar um ar mais leve e aliviar os pulmões que haviam sofrido com a fumaça do incêndio. Em meio aos gritos, sirenes e choro eles se sentaram alí impassíveis, era a visão de uma infância interrrompida. Aquilo foi doloroso de se ver. Naquele momento a notícias da tragédia já corriam o país. Meu telefone não parava de tocar. Emissoras de rádio, jornais de todo o país queriam informações. E atordoado com tudo aquilo tentei continuar meu trabalho, afinal também era pra isso que estava alí. Às vezes a sensação que tinha era que não havia nada em volta. Em alguns momentos olhava o ir e vir de pessoas cheias de fuligem e a imagem parecia não ter som. A impressão que me dava é que estava dentro de uma espécie de filme sem roteiro, terrível. Num momento, quando olhei de meu lado no estacionamento do hospital. Vi uma grande aglomeração de pessoas. Fui até o local. Era um policial militar. O pm, forte, havia caído no chão desmaiado. Ele havia participado do socorro das crianças na creche e havia inalado fumaça. Aguentou enquanto pôde e depois passou de socorrista a vítima. O que aconteceu, como foi o incêndio, tudo foi contado, com histórias das vítimas e heróis. Faço esse relato porque há um ano vivo com isso em meu coração e creio que há também um lado da história de quem conta e que mesmo numa visão de impessoalidade, que deve ser visão de jornalismo creio que também deveria ser percebido.
Meu abraço a todas as vítimas dessa tragédia que sempre estará presente na vida de todos nós
José Ambrósio Prates – Repórter
AMBROSIOPRATES.COM
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